Estamos prontos para a web 2.0?

Na seqüência do assunto do post com considerações acerca do entendimento do termo, vejo que o comentário bastante relevante do Kenji e os acontecimentos dos últimos dias (mais especificamente, as reações acerca de uma matéria exibida no Fantástico sobre o Twitter) mostram que a resposta seja: talvez não.

Em seu comentário, o Kenji menciona que a web 2.0 demanda coragem das empresas que participam. Mais correto, difícil. Abrir espaço para a colaboração dos usuários demanda coragem de assumir a possibilidade de receber uma enorme variedade de mensagens que não necessariamente serão positivas acerca da sua empresa e / ou seu negócio. Mas é exatamente aí que está o núcleo da coisa. Receber estas mensagens implica em aprender com elas e tomar (algumas) decisões a partir do conhecimento / acompanhamento destas manifestações (e, obviamente, de seu conteúdo).

O que percebo, no entanto, é que quem faz a web no Brasil (obviamente não estou generalizando, mas creio que o raciocínio se encaixa em grande parte das empresas) não parece também ter entendido a web 2.0. Portanto, a “culpa” não é só dos varejistas (como pode ter parecido ser a minha idéia no post anterior, referenciado no início deste texto). O que parece ocorrer é que quem faz a web (os “especialistas”) parecem saber tão pouco quanto os executivos das grandes corporações e da “velha mídia” que são tão criticados.

Para exemplificar, vou citar dois profissionais que admiro muito, o Cris Dias (que conheço há mais de sete anos e, como disse, admiro muito) e o Michel Lent. O primeiro é uma referência no Brasil em mídias sociais. O segundo é uma referência em comunicação online. O primeiro disse que o Twitter é uma rede social. O segundo criticou o Fantástico por ter falado que o Twitter é uma rede social (UPDATE: de acordo com Lent – veja os comentários – a crítica se refere ao fato da abordagem de o programa ter se referido a uma rede social como uma ferramenta). Na ocasião do post do Cris, conversei com ele (via IM) sobre o fato de que um dos fundadores da ferramenta disse o contrário e ele justificou que chamou a ferramenta de rede social pois as pessoas a rotulam como tal (e é fato. Basta uma busca báseica pela web para ver que muita gente se referencia ao Twitter como sendo uma rede social). A pergunta, então é: por quê ele (Cris) pode falar isso e o Fantástico não pode? Claro que isso não tem nada a ver com o Cris em si. Uso o exemplo dele pois é uma referência que trabalhou um conceito e ponto final. E é em torno da abordagem deste conceito (e do que isso implica) que trato neste post.

Alguns podem argumentar dizendo que o Fantástico, como um programa de orientação jornalística deveria procurar checar todos os conceitos antes de colocá-los numa matéria. Creio que talvez pode até ter acontecido isso; uma vez que o Cris é referência nacional quando o assunto é Twitter, acho bastante provável que o post dele ternha sido lido por alguém da equipe do programa da Globo. Mas nem é esse o caso (chega de especulações).

O caso é que, além de contrapor a abordagem de rede social do Twitter (de uma maneira bem bacana, diga-se) o Michel Lent especulou sobre os efeitos da popularização da ferramenta. E foi aí que ele errou e errou feio, motivando-me a escrever estas poucas linhas.

Ao final de seu texto, o Michel especula que a popularização do Twitter se compara à popularização do Orkut, diferenciando os dois fenômenos em alguns aspectos. Entretanto, ele se confunde bastante nas explicações e fala algumas abobrinhas:

Certamente o efeito ‘Fantástico’ no Twitter vai ter suas consequências. Mas será que a popularização da ferramenta vai atrapalhar? Vamos precisar mudar para um ‘bar mais vazio’?

Pôxa vida, a ferramenta foi feita para ser popular, oras! Se não fosse por isso, por qual motivo teria sido desenvolvida e disponibilizada gratuitamente? Não é justamente ao redor da idéia de que é na oferta de ferramentas para a participação democrática de pessoas ao redor do mundo contribuindo com conteúdo que a comunicação 2.0 se fundamenta?

Quando o Michel faz referência ao “bar mais vazio” fica clara a comparação com o Orkut, que se tornou bastante popular entre os brasileiros mas – justamente por isso – ganhou a “antipatia” dos mais antenados, que, ao ver que o site ganhou mais usuários, acharam que a coisa ficou ruim…

Veja bem se não é exatamente este o propósito destas ferramentas? Então por quê os profissionais que fazem a web desqualificam a coisa? Certamente não se embasam no fato de que a qualidade do conteúdo e o valor deste conteúdo cai (como o que ocorre com o MySpace nos EUA). Infelizmente, os argumentos não são esses. Antes fossem. Mas os argumentos são os mesmos que determinam a popularidade de bares e casas noturnas aqui em BH: Enquanto ninguém conhece, ok… Mas quando o “povão” (aka: classes C e D) começam a vir, é porque o bar ficou ruim.

Incrível como um pensamento tão 1.0 quanto este possa sair da cabeça de alguém que vende a web 2.0 a seus clientes. Por isso reforço a argumentação de que talvez não estejamos prontos. Estaremos prontos quando estas pessoas e empresas aprenderem que tanto no Orkut quanto no Twitter nos relacionamos com quem quisermos e é essa seleção que trará a relevância que precisamos. Ou seja: não importa se tem um trilhão de pessoas no Twitter ou no Orkut e que 99% destas pessoas coloquem nestes sites conteúdo irrelevante para mim. O que importa é a rede que eu formo!

Para reforçar, replico as palavras de um advogado (isso mesmo, não um comunicador e nem um comunicólogo, mas um advogado) sobre o assunto:

E tem aqueles que acham ruim a popularização do Twitter, com medo de ele virar um Okrut. Ninguém é obrigado a seguir ninguém, oras! Simples!

Que bacana que tenha gente que perceba isso, né? Mas que pena que este pensamento não seja compartilhado por uma das referências no Brasil em comunicação digital.

Para completar, remonto a pergunta do título do post: Estamos preparados para a web 2.0? A resposta definitiva (tirando o
“talvez”) é um sonoro não. Principalmente se formos observar o que o Lent falou.

Mas não creio que seja o caso de estarmos prontos. Na verdade, se pararmos para pensar, nunca estaremos.

Fechando, então, meu raciocínio, volto às palavras do comentário do Kenji: Para trabalhar com web 2.0 é preciso coragem.Ou seja: temos que fazer. É com nossos erros que vamos aprender. Tomara que seja rápido.

2 Comments to “Estamos prontos para a web 2.0?”

  1. michel lent 21 April 2009 at 11:29 #

    caio, na realidade eu critiquei o fato da matéria chamar rede social de ‘uma ferramenta’. rede é uma categoria de ferramentas, na qual considero que o twitter se encaixe sim.

    obrigado pelo link para o post.

    abs, m

  2. [caiocesar] 21 April 2009 at 12:05 #

    Bacana, Michel. Acho que cabe uma mudança no meu texto (feito) para explicar
    isso melhor. Valeu o comentário.


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