O apagão da mão-de-obra qualificada
Na semana passada estava conversando com o Fred e um dos assuntos foi: estamos vivendo um apagão de mão-de-obra qualificada.
Sem sombra de dúvidas, estamos sim vivendo este apagão. Um dos indicativos mais latentes desta falta de mão-de-obra é este próprio blog. Se não fosse pelo apagão, ele estaria às moscas, mas ultimamente tem virado um balcão de vagas disponibilizadas pelos colegas do mercado que sabem que eu tenho um público primordialmente formado por profissionais da área e futuros profissionais (meus alunos). Sei que tem gente que não gosta que o blog seja substituído por um balcão de vagas, mas é meio que incontrolável.
Como a coisa já se instalou, vamos às perguntas e ações práticas:
Onde se manifesta o apagão?
O apagão é claro na área de tecnologia. Desenvolvedores de interface, gestores de projeto, designers de experiência e de interação, programadores, profissionais de planejamento e marketing eletrônico são os que mais estão fazendo falta por aí…
Muito embora seja fácil notar que há vários cursos de graduação e pós nessas áreas (ou que contemplem estas áreas) o pessoal se divide em três grupos básicos:
- os bons de serviço que já estão empregados ou trabalham como freelancers e que dão o preço de seus serviços (ou seja: escolhem salários) – Esta galera representa algo entre 01 e 05% do total.
- profissionais ou estudantes medianos, que dão conta do recado e, por isso mesmo, vivem pulando de emprego em emprego (se paga R$ 10,00 a mais no salário, o povo tá indo) – Este montante representa algo entre 45 e 50% do total da mão de obra ofertada.
- profissionais ou estudantes medíocres. Este grupo dispensa apresentação e representa os 50% restantes da mão de obra ofertada.
Qual é o tamanho do apagão?
Pelas contas feitas a partir dos grupos acima listados, dá para perceber facilmente que o mercado está trabalhando com uma capacidade ociosa alta. Praticamente todo mundo está precisando de gente de qualidade para trabalhar e não está encontrando.
Deve ficar bem claro que a questão não é falta de gente. Gente tem de sobra. O problema é que não tem gente capaz. Ou seja: embora tenha muita gente desempregada, isso não indica que o mercado está saturado. Mas de jeito nenhum! O que acontece é que tem muita gente ruim de serviço e pouca gente realmente qualificada! Por mais que isso possa te deixar com raiva de mim, lembre-se que não sou eu quem está falando, é o empregador… É o dono de agência, de produtora e de fábrica de software… Esse pessoal está arrancando os cabelos pois tem demanda de trabalho mas não consegue achar gente boa o suficiente para trabalhar.
Sou um empregador, o quê devo fazer?
Em primeiro lugar, tentar se virar com o contingente de mão-de-obra que tem. Num segundo momento, vejo algumas atitudes que não podem ser ignoradas:
- Seja realista e evite buscar aquele funcionário canivete-suíço. Este cara não existe e, se existisse, não estaria disposto a receber o que você quer pagar.
- Aumente sua proposta de salário. Isso ajudará a fazer os bons profissionais considerarem ficar mais tempo com você.
- Crie um ambiente bacana para o funcionário se sentir estimulado a trabalhar em sua empresa.
- Seja honesto com seus clientes com relação a esta questão de mão-de-obra e ajuste seus contratos. Talvez você esteja cobrando pouco demais e isso causa um efeito cascata em sua estrutura.
- Procure treinar profissionais que já trabalham com você e também os novos funcionários. Custa caro e é arriscado, mas se você oferece um bom salário, um bom ambiente de trabalho e boas condições, os riscos são minimizados. Investir em treinamento pode ser uma boa saída para o apagão, mas não funciona isoladamente.
Sou um profissional (ou quase). O quê devo fazer para tirar proveito do apagão?
Antes de mais nada, seja honesto consigo mesmo e verifique em qual das três categorias de profissionais / estudantes você se encaixa. Se você se encaixa no grupo 1, relaxe e aproveite. Se se enquadra no grupo 2, procure uma empresa para ficar mais tempo trabalhando e lembre-se que se você ficar pulando de galho em galho, não crescrerá em lugar algum. Tente “aquetar o faixo” um pouco para crescer numa empresa que seja bacana para você. O mercado de trabalho não é uma boite… Encare um emprego como um relacionamento que você tem que trabalhar em conjunto com seu empregador para que seja duradouro.
Se você se encaixa no terceiro grupo de profissionais / estudantes, há muito para fazer:
- Passe a levar as coisas mais a sério. O mercado de trabalho não é como a escola, onde se você fizer o mínimo necessário, se dá bem. Aqui ninguém quer saber se o seu colega de grupo “barrigou” o projeto inteiro e sua responsabilidade pelo fracasso deve ser minimizada em função disso. O pessoal quer resultados. Então acorde para a realidade!
- Capacite-se. A culpa não é da sua escola. Falo isso pois sei que escola nenhuma te capacitará por completo. Assim sendo, mexa-se e corra atrás! Pode fazer cursos o quanto quiser, mas se você não se comprometer de verdade, nunca sairá do lugar. Esta capacitação inicial é primordial para você se dar bem depois. Pense nisso.
- Depois da capacitação básica, vá além! Especialize-se em algo. Escolha uma coisa e corra atrás dela. Aprenda a avaliar as oportunidades que aparecem e veja de que tipo de profissional o mercado está precisando. Busque ser este profissional. Pode ser com cursos, pode ser de maneira autônoma. Em raríssimas situações uma certificação oficial lhe será exigida. Então, não é “fazendo um curso” que você vai se capacitar. Muito menos abandonando a escola de vez. O segredo é realmente cursar algo ou comprometer-se com algo (caso não exista algum curso ou algo semelhante).
- Estude um segundo idioma. A totalidade dos medíocres ignora o inglês ou chega até a se orgulhar de não saber inglês. Pois tenha noção que sem inglês você perde muito. Perde em material de treinamento que é disponibilizado online gratuitamente em inglês, perde em leitura de livros bacanas e material técnico que não é traduzido, perde em oportunidades de trabalho pois o mundo inteiro anda precisando de gente bacana.
- Pratique, pratique e pratique! Mesmo que você esteja desempregado ou nunca trabalhou, pratique e monte um portfólio de projetos e de tudo o mais que você sabe fazer. É errando que se aprende.
- Mostre-se! Crie uma presença online bacana o suficiente para que os empregadores saibam que você existe!
- Seja humilde. Entenda que dificilmente somos os melhores do mundo em alguma coisa. Assim sendo, aprenda a reconhecer a limitação de suas capacidades e seja honesto sobre elas.
- Reconheça seus erros e amadureça. Se alguém da empresa disser que algo que você fez não ficou legal, não leve para o lado pessoal. Reconheça, corrija e aprenda com seu erro. Fechar os olhos para isso é uma sentença de morte profissional.
- Saiba que você deve começar por baixo. Provavelmente o pessoal ainda não te conhece. Então, fica difícil você exigir o melhor cargo e o mais alto salário. Aprenda a trabalhar com o que lhe é oferecido e aproveite cada oportunidade para crescer.
- Tenha paciência e saiba a hora de pedir aumento ou aumentar o seu preço. Isso demora, mas não é inalcançável. Você vai ter que trabalhar por pouco dinheiro por muito tempo, mas isso vai compensar.
Conclusão
Tem muita vaga sobrando. Tem muita gente medíocre sobrando. Enquanto você não fizer nada a respeito, a coisa vai continuar assim. Uma coisa que aprendi logo no começo da minha graduação – há quase quinze anos – foi que não existe falta de trabalho para quem é bom de serviço. Até o momento, não vi nenhum exemplo para suspeitar que isso não seja uma grande verdade. Outra verdade é a de que quem é realmente bom de serviço faz o seu salário. Novamente, nunca me deparei com nenhuma ocorrência que contrariasse isso. Ou seja: o apagão existe e é um buraco cheio de oportunidades para quem quer se dar bem. Vão se dar bem o profissional que souber aproveitar as oportunidades e os empregadores que entenderem como este profissional trabalha e quanto ele custa.
8 Comments to “O apagão da mão-de-obra qualificada”
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Olá! Primeira vez que comento em seu blog.
Concordo com cada um dos pontos que abordou e ainda acredito que mesmo os profissionais que se encaixam na primeira situação citada devem sempre se aprimorar cada vez mais pois podem facilmente ficar defasados tamanha a dinâmica da indústria de software.
Grande Caio, parabéns pelo texto acima.
Concordo com suas palavras e também vejo essa realidade no mercado há uns bons anos.
Belo texto. Reflete bem a postura de vários estudantes que se contentam com pouco e chegam ao mercado totalmente despreparados hoje em dia. Vão pouco a pouco se tornando profissionais medíocres (ou grandes amadores rss)
“Tem muita gente mediocre sobrando” eh a maior verdade.
Eh necessario ter um diferencial, se destacar em alguma coisa.
Excelente post, Caio! Deixo aqui meus dois centavos, em conceitos que sigo há 11 anos e até hoje nunca deram errado:
1 – Sempre se pergunte: “Será que há uma maneira mais fácil, mais inteligente, enfim, melhor de fazer essa tarefa que me passaram”?
SEMPRE haverá um jeito diferente, geralmente melhor de fazer aquela tarefa chata, braçal, que lhe foi delegada, do que aquele jeito que você pratica.
E isso vale para as tarefas legais também, pois uma tarefa gostosa de fazer, mas que leva MUITO tempo acaba caindo no hall das improdutivas e tempo jogado fora é no mínimo burrice.
Ilustrando a frase acima:
Certa feita, uma tarefa que iria gastar quase 20 horas foi feita em aproximadamente 40 minutos.
O problema: o funcionário recebeu a tarefa, NÃO PENSOU, e saiu executando a danada. Depois de 2 horas, quando viu que iria demorar muito, começou a reclamar com todo mundo.
A solução: o responsável da área ouviu as reclamações do elemento, pontou-as e viu que a tarefa realmente iria gastar umas 16 horas ou mais. Satisfeito, o funcionário há de ter pensado: “Tá vendo, coisa mais chata e burra de fazer, essa tarefa, coisa de estagiário”…
O responsável então perguntou:
- Mas fulano, você não pensou numa outra maneira de fazer?
- Não há como, não há outra maneira.
Certo que há, SEMPRE, um jeito diferente de abordar um problema, o gerente chamou outro funcionário, bom de serviço, que estava sentado ATRÁS do sujeito.
- Siclano, chega mais, vamos tentar aqui uma abordagem, lembra daquela vez que me mostrou uma manipulação de texto?
O Siclano então, após gastar uns minutos entendendo o problema, criou a solução em meia hora. Aquilo que gastaria 2 a 3 dias, gastou menos de uma hora. E ele ainda se divertiu fazendo.
Custou ao fulano uma simples força de vontade de levantar a voz e perguntar na sala: – Pessoal, tô com um problema aqui, alguém sabe uma solução melhor para isso?
Moral da história: Trabalhar em equipe não é apenas sentar na mesma sala com muita gente e nem achar que a sua parte do trabalho é a única no projeto. O projeto é o todo, é o trabalho de todo mundo e o seu colega tem uma experiência de vida diferente da sua e pode acrescentar uma solução boa a um problema.
Ah, para quem chegou até aqui: a tarefa era colocar um glossário de mais de 1000 itens, que veio num .doc, em HTML, com os devidos título e descrição dentro de tags específicas. A solução foi criada através de uma expressão regular. Aprenda-as aqui: http://aurelio.net/er/
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2 – Busque saber o quanto seu trabalho contribui para o negócio da empresa antes de pedir um salário maior. Saiba justificar seu pedido, busque levantar o que ele representa no custo de um projeto web e o que ele traz de retorno. Seja inteligente.
Caio, infelizmente não é apenas em nossa área que isto acontece, infelizmente.
Uma série de fatores que citou e mais outras reafirmam que essa defasagem é uma equação difícil de se solucionar e não terá fim, infelizmente.
Mas a discussão, aqui aprofundada por você, já é um bom indício de que nem tudo está perdido, e que há pessoas engajadas numa melhoria na área, em todos os aspectos.
Parabéns
Bacana o post. Tudo bem Dr. Caio?
Deu vontade de comentar. Posso dar umas dicas também?
ESTUDE INGLÊS (estude o português tb)
Assim com pouco esforço dá pra esmagar o ‘delay’ de informação e tecnológico que tenho a nitída impressão que acontece. Explico: Começa na ‘gringa’, depois de 2 anos chega em São Paulo mais 2 chega em Belo Horizonte. Os ‘caras’ mais brutos do ecommerce no Brasil fazem isso genialmente e ganham 4 anos de vantagem em informação (esses são os mais espertos não esperam 2 anos). Veja aqui: http://blog.ikeda.com.br e aqui: http://vimeo.com/ikedaecommerce
Com inglês você também aprende tudo quanto é software, tecnicas e linguagens de programação pela internet mesmo. Aqui por exemplo: http://www.lynda.com/ você vai se tornar uma ótima MÃO-DE-OBRA se é que me entende.
SEJA FREELANCER
Tenha atitude freela em qualquer lugar que for trabalhar. Qualquer lugar! ATITUTE freela é tratar todos como cliente. Não tenha patrão (pelo menos em seu pensamento). Se recuse a ter essa ideia. Empregados batem cartão tem que ser vigiados são velhos da era da indústria. Evolua! Comece a tratar seu chefe como seu principal cliente do contrário você vai ser mesmo uma bela MÃO-DE-OBRA. “Cê tem que ser proativo caraio”! Falou Chico Bento.
Entenda o que é ser freela aqui: http://falafreela.com.br/episodios/o-que-e-um-freelancer
Não é para qualquer um. Mas você pode perfeitamente assisnar sua carteira de trabalho, bater cartão, ter patrão, uma equipe legal e ainda assim ter uma atitude de freela tanto com chefe quanto com os colegas de trabalho. O que não pode é ser esse mosca morta funcionário público sapo fervido dos infernos.
SEJA FREELA, EMPREENDEDOR E DESENVOLVA EMPREGABILIDADE.
Assista um pouco de Waldez Luiz Ludwig pra entender o conceito http://migre.me/UBzA
AME OS LIVROS QUE SEUS PROFESSORES LERAM.
Descubra os livros que ensinam em suas aulas antes de pisar em alguma instituição. Leia um por mês. Aplique o conhecimento no trabalho. Pronto!
Tem professor que é do tipo gravador e só fala daquele livro que você já leu. O mercado não os quis eles e viraram professores. Salvo com justiça algumas exceções.
Da faculdade fortalaça os relacionamentos serão seus contatos do twitter talvez. Alguns serão professores. Álias, fortaleça relacionamentos sempre. Sem Q.I. (quem indica) tudo é mais dificil. Pratique disciplina. Treine falar em público. As escolas são ótimas pra isso.
A informação não está mais com eles.
Não acredito que esteja faltando MÃO-DE-OBRA falta mesmo é talento que é totalmente diferente. E de talendo que o mercado carece.
Mas se o seu negócio é fazer curso mesmo o Caio da aula aqui: http://www.fca.pucminas.br/saogabriel/producaomultimidia/ A grade é bacana.
Assiste mais Waldez Luiz Ludwig – Jô Soares 01 http://migre.me/UDFg
A cara assiste mais Valdez ai.
=]
Uma das forma que achei para poder me capacitar foi fazer estágio durante a facul. Atuar na sua área de trabalho enquanto ainda é estudante te dá suporte e experiência para um futuro emprego.
Sobre isso li um post interessante que pode acrescentar:http://blog.orestesquercia.com.br/estagios-colocam-jovens-no-mercado-de-trabalho-e-garantem-experiencia-profissional/