Arquivo da categoria: Cibercultura

Não deixe decisões editoriais nas mãos de plataformas

Durante esta primeira semana de Setembro estive em Joinville para participar do 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom. Lá, um dos assuntos discutidos no GT de Comunicação Digital foi o de que veículos de comunicação acabam por buscar soluções prontas (plataformas sociais como o Facebook) para distribuir seu conteúdo. O professor Andre Pase lembrou também, em uma discussão bem interessante, que até adotar plataformas outras (como Disqus ou o próprio Facebook) para comentários em seus sites representa esta ação de buscar uma solução pronta para tratar seu conteúdo.

Esta solução pode parecer sedutora. Afinal são 2 bilhões de pessoas conectadas ao Facebook. Só que apenas uma parte bem pequena delas curte sua fan page e uma fração menor ainda efetivamente vê o que você posta. Para piorar, as coisas que você posta em sua fan page podem ser apagadas pelo próprio Facebook quando ele (por meio de seus algoritmos) julga que aquele conteúdo não é apropriado. Este exemplo relatado pelo Nieman Lab mostra exatamente isso.

Está passando da hora de percebermos (todos nós) que a web é, em sua essência, social. Não precisamos destas plataformas proprietárias e voltadas exclusivamente para uma operação lucrativa para atuarmos em rede, num contexto social.

10 motivos para usar o Telegram

Quem me conhece sabe que eu sou um baita evangelizador do Telegram. Tanto que há tempos não uso outro serviço de mensagens instantâneas. Apenas o Telegram. A exceção é o serviço de SMS do celular, que uso para enviar mensagens para aquelas pessoas que ainda não conhecem as maravilhas do Telegram.

Mas, Caio, por qual motivo você usa o Telegram e não outro serviço que (supostamente) mais gente usa, tipo o WhatsApp?

Bem, como esta é uma questão que muita gente levanta, listarei a seguir alguns motivos.

1 – O Telegram funciona em múltiplas plataformas
Uma coisa muito legal do Telegram é que ele tem clientes para os sistemas móveis (Android, iOS e WindowsPhone) que são sempre mantidos bem atualizados.
Funciona em telefones e Tablets, diferentemente do WhatsApp, por exemplo.
Ah, e o Telegram tem versões em software para você usar no seu computador Apple, Linux ou Windows. Eu prefiro usar os software pois desvincula do navegador e me evita distrações.
No entanto, se você quiser usar no navegador, pode fazer sem ter que ficar ar lendo QR Code toda vez que quiser usar.

2 – O Telegram permite que você não divulgue seu número de telefone
Uma coisa muito legal do Telegram é que ele permite que você crie um nome de usuário (o meu é @caiocgo). E aí, você pode ser localizado na rede por este nome, e não pelo seu número de telefone. Tem muita gente que prefere e precisa que seu número de telefone fique privado. No Telegram, isso é possível.

3 – O Telegram permite que você use sem que seu telefone esteja ligado ou conectado
Se você usa o Telegram via web ou app no tablet / computador, não precisa que seu telefone esteja conectado. Pode desligar o telefone e ser feliz.

4 – O Telegram tem stickers
Os stickers são apenas uma faceta bem legal do Telegram. Você pode usar uma infinidade deles e até criar os seus pacotes. Tem Stickers para tudo quanto é coisa. Isso torna o uso da plataforma até bem divertido.

5 – Os grupos e supergrupos são muito legais
Você pode ter grupos públicos e privados. pode também ter supergrupos com quantidade enorme de participantes. Pode configurar para que membros tenham ou não a possibilidade de consultas ao arquivo do grupo. muito bacana para quem entra no grupo poder navegar pelo histórico e ver o que já foi discutido.

6 – Canais são formas muito bacanas de se manter informado (e informar)
O Telegram permite que você crie canais para apenas informar os assinantes. Diferentemente dos grupos, nos canais apenas o dono / administrador do canal tem como postar mensagens. Aí os assinantes ficam avisados rapidamente daquela informação que você precisa entregar.

Canais são bastante úteis para empresas que querem entregar informações a seguidores. A Rede tem um canal, onde posto notícias e recomendações de leitura bacanas que acho por aí.
Um outro canal que eu recomendo, especial para os residentes da RMBH é o da Defesa civil, que posta regularmente informes sobre meteorologia e alertas de áreas de atenção no caso de chuvas. Muito útil.
Pense em canais como uma forma de efetivamente chegar aos seus leitores sem muito esforço.

7 – Bots!
O Telegram tem a possibilidade de você criar e manter Bots rapidamente. Seus bots podem fazer um monte de coisas. Por exemplo: responder perguntas frequentes das pessoas ou até executar serviços. O processo de criação, como disse é muito simples. Para quem cuida de comunicação de marcas, bots e canais são discas excelentes que mostram a superioridade do Telegram para com outras plataformas.

8 – Integração com serviços externos
O Telegram permite que você faça integração com diversos. outros serviços. o IFTTT (If This Than That) integra a plataforma a várias outras. O Canal da Rede, por exemplo, está integrado ao meu leitor de RSS (NewsBlur). Sempre que eu marco uma postagem que achei interessante lá no NewsBlur, esta postagem é disparada para o canal. O processo de compartilhar fica ainda mais fácil. Novamente, as possibilidades para quem cuida da comunicação digital de empresas são bem bacanas nesta plataforma.

Outra integração bem legal que faço no Telegram é com o Trello. Trabalho muito com o Trello para gerenciar tarefas individualmente ou em grupos. O Telegram é a companhia perfeita ao Trello. Eu, por exemplo, sou alertado por um Bot do Trello sempre que alguém faz uma ação em um dos quadros que mantenho. Isso poupa um tempo danado!

9 – Não é do Facebook
Com o escândalo da Cambridge Analytica fica cada vez mais claro que a gente deve evitar usar ferramentas do FB. Você já deve ter notado que, vez por outra o FB recomenda que você fique amigo daquela pessoa que nem conhece muito mas que compartilha um mesmo grupo que você no WhatsApp. Isso é uma baita invasão de sua privacidade e serve para você ficar alerta que o FB está sim (por mais que negue) de olho no que você escreve mesmo em mensagens privadas no WhatsApp.

Se você ainda não percebeu, ninguém deve confiar um fio de cabelo sequer ao Facebook.

10 – Editar e excluir mensagens
Embora seja possível fazer isso no WhatsApp, no Telegram o processo é bem bacana. Você pode editar as mensagens e excluí-las (só para você ou para todo mundo). O mais legal é que mensagens excluídas são efetivamente removidas, sem ficar aquele aviso tosco de que havia uma mensagem ali.

BÔNUS TRACK – Governos não gostam dele
Recentemente a Rússia baniu o Telegram. O Irã também não é o maior fã da plataforma. Isso, por si só, já deveria ser motivo para você usar.

Ain, Caio… Mas eu não quero ter mais um app instalado no meu celular…

Deixe de besteira. O Telegram é relativamente leve e não vai te prejudicar em nada. Desinstale alguma coisa inútil de seu telefone (tipo o Facebook ou o Instagram) e instale o Telegram.

Por fim, a resposta para uma pergunta que sempre me fazem:

Você não sente falta do WhatsApp?
Não.

🙂

Olha, se você ainda não sacou… Eu recomendaria prestar atenção no Telegram. As possibilidades para o indivíduo e para a empresa são muitas. Evite ter a preguiça de uma plataforma e invista algum tempo em – no mínimo – explorar as possibilidades. Garanto que você vai gostar muito.

Qual é o seu presente para a web no dia de hoje?

Hoje, dia 12 de março de 2018, a WEB faz 29 anos. E ela está ameaçada.

A web é um instrumento, um dispositivo, um aparato, um ambiente em que nós, os usuários (se preferir, os “nós” da rede), podemos ter o poder. Podemos, como Licklider e Taylor (1968) e vários outros depois deles pensaram: a capacidade de participar ativamente do processo comunicacional. A web representa o que Negroponte chamou de deslocamento do poder do transmissor para o receptor. A gente monta nossa própria programação e consome o que quer, quando quer e do jeito que quer.

Acontece que, a necessidade de certo domínio de um conjunto de técnicas (Lévy, 2010), acabou por levar-nos a uma posição de dependência de plataformas controladas por entidades – as plataformas sociais como Twitter e Facebook – cujo modelo de negócios e funcionamento se assemelha enormemente com o que conhecemos na mídia de massa. Sua necessidade de obter lucro por meio de publicidade subverte a ideia de poder nas mãos das pessoas e desvirtua o que se pensava anteriormente como a web sendo o espaço onde todos poderíamos ter voz. Nestas plataformas, a lógica é a mesma da mídia de massa: é necessário ter o poder financeiro para fazer sua mensagem chegar às pessoas.

Só que a web não é isso. A web é um território livre.

Que tal darmos de presente para ela e, consequentemente, nós mesmos (já que a web somos nós) um passo adiante para a retomada do poder que a web nos proporcionou e que, voluntariamente, temos aberto mão nos últimos anos? É isso que (no link lá do começo) o inventor da web, Tim Berners-Lee fala sobre fazer a web trabalhar para as pessoas. Trata-se de uma retomada do poder que, voluntariamente, entregamos para corporações cujos interesses se distanciam enormemente dos nossos. Precisamos exercer mais a autocomunicação.

O poder da comunicação e da autocomunicação bem conceitualizado por Castells (2010) conceitualizou, permite que nós, indivíduos utilizemos da rede para nos organizar e constituir um novo poder que pode contrapor às instituições vigentes. Aqui refiro-me especialmente ao poder da mídia de massa que visa homogeneizar o que não é possível de homogeneizar (a sociedade).

Por isso insisto, que tal a gente dar para a web o presente que ela (nós) merece (merecemos)? Vamos retomar o poder. Vamos voltar a escrever em nossos próprios sites ao invés de usarmos plataformas outras que não nos pertencem e cujas decisões de alcance dependem do quanto os executivos podem ganhar em cima da nossas produções!

Vamos adotar a ideia de construirmos novas conexões entre ideias de forma mais orgânica e menos dependente dos algoritmos. Eles são interessantes, mas não devem ditar nossos comportamentos e intermediar plenamente nossas relações e as ligações entre nossas ideias.

Que tal a gente presentear a web com a ação de retornarmos a autoria do grande hipertexto que a compõe?

 

REFERÊNCIAS

Castells, M. (2013). Communication power. OUP Oxford.

Lévy, Pierre. (2010). Cibercultura. Editora 34.

Licklider, J. C., & Taylor, R. W. (1968). The computer as a communication device. Science and technology, 76(2), 1-3.

Negroponte, N. (1995). being digital. Alfred A. Knorpf: New York.

 

EXTRA
http://tantek.com/2018/037/t1/posse-indieweb-twitter-facebook
https://webfoundation.org/2018/03/web-birthday-29/

Dica de leitura: Introdução à Análise de Redes Sociais Online

Em dezembro de 2017 tive contato com a publicação “Introdução à Análise de Redes Sociais Online”, escrito pela pesquisadora Raquel Recuero e disponibilizado gratuitamente pela EDUFBA (http://www.lab404.ufba.br/?p=3223).

Trata-se de iniciativa bem interessante e necessária. Como sabemos, o tópico da Análise de Redes Sociais (ARS) ainda é muito pouco explorado no país; em especial na Comunicação. Há muito o que fazer e estudar. Muita coisa por descobrir e explorar.

É justamente nesse sentido que se faz a recomendação da leitura. Tendo em vista que o objetivo da autora é apresentar o tema e métodos possíveis de investigação, creio ser interessante para se familiarizar com o tema. Nas palavras da autora:

“O que é relevante aqui é perceber que a ARS existe dentro do arcabouço de métodos possíveis para que pesquisadores das áreas que tradicionalmente não trabalham de modo tão empírico e com tantos dados (como é o caso da Comunicação) possam se munir de modos de análise e compreender elementos mais amplos em seus dados. Nosso objetivo, portanto, é ampliar a compreensão desses modos e permitir que a ARS seja mais popularizada entre os pesquisadores, de modo especial, entre aqueles que trabalham com dados provenientes do ciberespaço.”

O livro tem leitura bastante fácil e é bem direto ao assunto, apresentando a origem das informações e indicando caminhos.

Tenho apenas duas ressalvas com relação ao texto. Tecnicalidades que não atrapalham o objetivo da autora e muito menos o entendimento do assunto.

A primeira delas é com relação ao conceito de buraco ou lacuna estrutural (structural hole). Embora Recuero (2017) cite bem acertadamente Burt para fundamentar o conceito, creio que vale observar que este mesmo autor apresenta o conceito de lacuna estrutural (Burt, 1995) como sendo a posição de um ator que é a única ligação entre diferentes grupos. Nesse sentido, se este ator se ausenta, há a criação da lacuna (ou buraco). Tratei deste assunto na ocasião em que procedi com o mapeamento da rede de pesquisadores em Administração no país (Oliveira, 2013). Na ocasião apresentei o conceito a partir de Burt (1995) com a ligação a Coleman (1988) da seguinte forma:

“Ao compreender o capital social como um recurso da rede buscado pelos atores e, portanto, motivador de suas ações, deve-se entender também que a posição ocupada na rede lhes proporciona capital social. Assim sendo, é possível enxergar que determinado ator que está posicionado na estrutura como a única ligação entre dois grupos que compartilham interesses ocupa um espaço conceitual de destaque, pois é ele quem controla o acesso a recursos por parte dos dois grupos. A esse ator atribui-se o título de lacuna estrutural (Burt, 1995).

Ocupar uma posição de lacuna estrutural na estrutura da rede não é o único ganho ou recurso proporcionado a determinado ator. Reputação, controle de informação, confiança e cooperação são também recursos ou ganhos que se pode obter a partir de suas relações e posicionamentos na rede (Coleman, 1988).”

A segunda questão é ainda mais sutil e refere-se a questão das redes de dois modos. Como meu trabalho de mapeamento da rede de pesquisadores em Administração no Brasil tratou disso, entendo que as redes de dois modos são um pouco diferentes daquilo que é apresentado no livro. Recomendo a leitura desta postagem do Tore Opsahl (https://toreopsahl.com/tnet/two-mode-networks/defining-two-mode-networks/) para mais detalhes sobre as redes de dois modos (o autor, inclusive, exemplifica as redes de colaboração científica como redes de dois modos, como fiz. Tanto ele quanto eu usamos Newman (2001), Wasserman e Faust (1994), dentre outros, para embasamento.

Como disse, estas diferenças no modo de enxergar o que é uma lacuna estrutural e uma rede de dois modos não atrapalham e nem desabonam o texto. A leitura do livro é bastante recomendada. Fica aí uma dica bem interessante para quem quer, rápida e objetivamente, se introduzir ao tema da Análise de Redes Sociais.

Referências:

Burt, R. (1995). Structural holes: The social structure of competition. Harvard University Press.

Coleman, J. (1988). Social capital in the creation of human capital. American Journal of Sociology, 94

Newman, M. E. J. (2001). Scientific collaboration networks. II. Shortest paths, weighted networks, and centrality. Physical Review E 64, 016132.

Oliveira, C. C. (2013). Coopetição em redes interpessoais: relacionamentos coopetitivos na rede de pesquisadores brasileiros em Administração. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Recuero, R. (2017). Introdução à análise de redes sociais online. EDUFBA, Salvador, BA, Brasil.

Wasserman, S., Faust, K. (1994). Social Network Analysis: Methods and Applications. Cambridge University Press, New York, NY.